Por Ruy Reinert Junior, sócio ABGS de número 2834
Quando queremos vencer uma guerra, uma das facetas mais importantes é conhecer o inimigo . Em breve estaremos no Outubro Rosa, mês do ano dedicado a guerra contra o câncer. Esta guerra é travada, em muitas batalhas.
Devemos prevenir: não fume, não se exponha ao sol em horários inadequados, alimente-se bem, … . Devemos fazer diagnóstico precoce: mamografia, cito-patológico de colo uterino, PSA, … . Devemos buscar material para fornecer ao patologista, visando identificar que tipo de doença devemos tratar: biópsia, punção aspirativa, … .
A partir daí, passamos a ter dados que levarão a um tratamento individualizado para cada paciente contra sua específica doença.
Em primeiro lugar deve-se entender que cada câncer é diferente do outro, tanto por ser oriundo de órgãos diferentes quanto por terem comportamento diferentes dentro de cada órgão.
Quando alguém vem até mim e me pergunta: “Doutor, meu familiar tem câncer e agora? “, soa como: “Eu fui até a fruteira e comprei doze frutas, preciso do carro para levá-las para casa ? “. Ora se você comprou doze pitangas, claro que não, mas se você comprou doze melancias, claro que sim. Não estou brincando, se o seu familiar tem um câncer de mama esta doença é completamente diferente de um câncer de pulmão.
Por outro lado, a consagrada classificação de tumores chamada TNM, baseada nas características do tumor, do envolvimento de linfonodos e de outros órgãos, tem por base principalmente o tamanho da doença, a sua extensão loco-regional e a distância.
Imaginemos que eu perdi uma aposta e tenho que entrar no pátio de uma de duas casas com muitos cachorros, todos pequenos. Mas eles podem ser poodles ou pitt-bulls, e se eu puder saber que cachorros moram em cada casa eu escolho a casa que tem poodles , não é ? A agressividade faz diferença nas células tumorais também, tanto para definição das chances de cura quanto na escolha do tratamento. Ela separa os tumores mansos e brabos, pergunta que inúmeras vezes meus pacientes fazem sobre sua doença.
Mas, em outra ocasião, meu pomar ou meu cachorro pega uma doença. Não vou até o armazém e peço: “Dá um remédio para as minhas parreiras”. É preciso saber que doença está afligindo quem precisa de tratamento, para que se faça a correta escolha do tratamento.
Parece que se está brincando, mas o desenvolvimento da Oncologia está cada vez mais voltado a separar doenças diferentes e trata-las de forma específica para suas características. Inúmeras pequenas variações no comportamento celular são ditados por características na membrana celular, no dialogo entre esta e o núcleo da célula e na carga genética intranuclear. O conhecimento e a terapia voltada a estas mudanças serão o determinante do próximo passo de progresso no tratamento do câncer.